Dama da noite

A Lua é negra, você me diz – e usa uma máscara pálida para afastar os demônios. A noite é o próprio corpo da Lua. Não há nada mais precioso que uma chuva no meio da noite. É o momento mais íntimo da natureza. Você diz que as luzes da rua são os brincos da noite de mil orelhas. Que a via-láctea desponta de um dos seios da madrugada. E todos os poetas cantam à noite, e as pessoas embriagam-se ao mesmo tempo para homenagear e se proteger das asas escuras do anoitecer. E quando as pessoas ficam bêbadas durante o dia, deixam nascer dentro de si uma pequena escuridão. Em São Paulo não há muitas estrelas, você lamenta, mas há muitos enfeites, a noite paulistana é cercada de enfeites & vestidos para fazê-la esquecer de sua perda. Longe daqui, o corpo nu da Lua – a noite – é de uma negritude muito mais absoluta, quase turquesa através da névoa branca das estrelas. Mas a Lua veste sempre a sua máscara – a que nós nos limitamos a dizer que é só ela a Lua – para defender-se dos demônios que vêm de longe. Por vezes, a máscara se quebra, e por alguns momentos nós temos a chamada Lua Nova. A reconstrução da máscara, entende? Todo mundo fala da noite paulistana, o como é infinita em desdobramentos. Mas São Paulo entrou no quarto e assassinou a dama noite.A noite de São Paulo está sendo aos poucos extinta, sangrando luz e música. E isso é natural, você diz. Porque são muitas pessoas, e as pessoas podem parecer mais fortes do que a natureza, que a escuridão. Todos a temem, e estão inconscientemente se organizando para iluminar as noites, erguer-se sobre o escuro e esquecê-lo. Mas eu até acho isso bom, sabia?, as festas, os bares, os automóveis, o império elétrico que é essa cidade, toda cercada por uma luz que nunca cessa.

Quando eu era criança, por exemplo, eu tinha muito medo do escuro. Sempre senti de uma maneira muito forte o quanto pode existir dentro daquilo que nós não vemos, o que existe entre nós, claro, para além das ondas de rádio e a interação do vazio em constante movimento, existe aquilo que chamamos vácuo, e o vácuo tem a sua memória própria. Assim, quando eu ia dormir, temia aquilo que existia dentro das profundezas do escuro. Mas não era um medo físico, de que algo poderia me atacar ou qualquer coisa assim, era um medo ancestral que ignorava toda a lógica dos meus sentidos, e ao mesmo tempo os eriçava ao extremo; era medo daquilo que transitava entre todas as dimensões, do invisível, algo para além do tempo, que unia passado, presente e futuro em um único instante, superior à fantasmas e bichos-papões, eu temia algo que não possuía um nome, mas sim era a força do próprio universo gerada no ventre da noite, era como uma voz imensa ressoando com a mesma intensidade por toda a face da terra coberta pelo véu da noite. E de manhã, quando eu acordava, eu sabia que aquilo ainda estava lá, mas escondido à luz do Sol. Era como se a noite fosse sua face. Depois que eu vim para a capital, eu vi essa sensação diminuir progressivamente, talvez por causa do fluxo ininterrupto de informação trocada entre antenas, satélites, telefones, televisão, rádio, enfim, na rua havia sempre um poste aceso, no céu havia sempre um avião, e a ausência daquela solidão camponesa se tornou também na ausência daquela força, e por mais que eu tivesse certeza da sua ‘existência’, muitas vezes eu chegava até a esquecer o estranho sentimento de estar no mesmo quarto que está todo o universo.
Hoje eu acho que, se por acaso houver um apagão em São Paulo como aquele que teve em 1999, o total blecaute, pane e pânico, nenhuma luz acesa em nenhum lugar da cidade, mesmo assim – as estrelas não iam aparecer. Nosso céu continuaria povoado por aquela mesma dúbia dúzia de estrelas de sempre. Porque nós cegamos as estrelas, nós as deixamos traumatizadas. Mas ainda assim, existe um lugar da noite que o ser humano não pode tocar. Não pode ferir. É como o silêncio que habita o próprio silêncio, a eterna e introspectiva repetição de tudo que é vasto e profundo. É a noite absoluta, onde não existem seres humanos, apenas as eternas entidades que nascem do movimento do cosmos. É o mesmo escuro que havia antes da primeira partícula de luz. É o mesmo escuro entre corpos celestes distantes. É o mesmo escuro que havia antes de Deus ordenar que houvesse luz. É a treva virgem. E é justamente o que eu busco, pois é isso que há de mais delicado e absoluto na natureza. Onde nunca existirá nada além de um perfeito, vítreo, eterno e silencioso escuro.

 

Nós nos levantamos de nossa mesa, pagamos a conta do bar que começa a encerrar as atividades e ganhamos a rua. Está amanhecendo, e os postes começam a apagar, um a um. No céu a Lua já não se vê. Nós nos despedimos com um abraço e vamos cada qual por um caminho. Eu te observo se afastado até seu corpo desaparecer atrás dos prédios. E sigo meu caminho, sempre com a estranha sensação de estar sendo observado por alguém. Demônios, talvez.

 

Agosto de 2017

 

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