Um presente

As coisas dele ainda estavam sobre a mesa. Não muito, um livro de gramática, um pacote de cigarros, um saquinho com balas de gengibre. Objetos que em conjunto traçam o panorama quase completo de uma personalidade. Mas ele não estava lá. Por todo quarto, tentei rastrear os enigmas que ele costumava deixar; algum objeto sempre respirava o mistério de seu toque, um livro de aforismos de Byron marcado numa página específica, um desenho feito a partir de bitucas de cigarro, o espelho do banheiro colocado ao lado da cama. Mas dessa vez não tinha nada. Só o peso inexorável da sua ausência, talvez o maior mistério. Mais tarde, tentei ligar, traindo os preceitos daquela relação, mas era evidente que ele não atenderia. Joguei pedras em um cachorro na rua, não conseguia controlar a ansiedade que pairava no céu como um imenso abutre naquele sábado. O cachorro desviou e gemeu antes de desaparecer atrás de um prédio comercial. Voltei logo para casa, afinal, ele poderia aparecer a qualquer momento, pelo menos para buscar suas coisas. E dentro de uma ilusão, de repente, para mim, o livro de gramática, os cigarros e as balinhas de gengibre adquiriram uma importância indispensável, era impossível que ele abandonasse tudo aquilo sobre a mesa do meu quarto. Faziam parte do seu corpo. Alimentei Flores, minha velha calopsita, com os restos de arroz que esquentei na frigideira com manteiga e sal. Ela ia ficando cada vez mais doente com o passar dos dias, suas penas brancas pareciam amareladas, sujas. E também já não a via cantar há meses, nem quando eu fechava todas as janelas, abria a portinha da gaiola e a permitia voar pelo apartamento ela abandonava seu poleiro, ficava ali, com seu olhar imenso e vazio para o universo que se desdobrava sob a área de serviço da cozinha. Ainda me lembro quando a voz dele ressoou através do interfone me pedindo para descer, rápido. Quando atravessei a porta para a rua, o vi na calçada do outro lado, segurando um objeto grande coberto por um pano vermelho. Acenava para mim. Sob o tecido estava a gaiola de Flores, que ainda era um pássaro altivo que pertencia mesmo à visão de um corpo projetado para o infinito do céu, encolhido em seu canto, parecia conter em si uma força natural enorme. É um presente, para quando estiver com saudades de mim. Os ruídos da calopsita pareciam mais uma tosse febril, ainda mais naquele sábado, onde tudo soava como um pedido de socorro. Mastiguei olhando para a janela uma das balas de gengibre dele, e também furtei um Camel blue. Eu havia parado de fumar. Por mais que ele ficasse lindo com o cigarro na boca, sentado sobre o canto da cama deixando a luz entrecortada pelas persianas tocar as suas costas nuas e beijar um pouco sua bochecha, e seu cabelo, enquanto a fumaça se misturava com as constelações de poeira expostas à claridade de mais um dia, eu resistia à tentação. Deixei o cigarro entre as duas primeiras página do livro de gramática e saí de novo para rua a fim de comprar alguma bebida. O próprio entardecer parecia projetar uma sombra sobre o meu corpo por onde quer que eu passasse. Estava claro que não ia chover, o céu oscilava sua coloração entre manchas acinzentadas e outras excessivamente brancas. Comprei um litro de Old Eight e dois litros de CocaCola num mercadinho da Sta.Cecília. Passei enfim na farmácia para comprar o teste de gravidez e também um novo pacote de absorventes noturnos, caso tudo corresse bem. Voltando para casa, onde a rua se torna um pouco mais vazia, uma espécie de silvo percorreu minha coluna, e senti que não estava sozinha. Acelerei o passo e apertei os dedos nas hastes da sacolinha plástica, já estava perto do meu prédio e, na próxima esquina, a rua voltava a ser movimentada. Mas o dia parecia escurecer em questão de segundos. Por detrás das caçambas, atrás de mim, da esquina que eu havia virado, dos buracos nas paredes das construções – de todos os lugares -, surgiram os cachorros. No mínimo duas dezenas de vira-latas, todos únicos em si, se movimentando com astúcia ao contornar o meu corpo. Eu parei de caminhar. Eles não latiam, não arfavam, não abanavam o rabo. Não faziam nada que não fosse olhar para mim com seus olhos vastos e negros.Eu tive certeza que o cachorro que havia sido apedrejado por mim mais cedo estava ali entre eles. Entre nós. Continuei a andar, com os olhos meio fechados, sabendo que eles me acompanhavam com a cabeça. Sentia uma profunda vontade de começar a chorar enquanto o cheiro milenar que exalava dos pêlos daqueles animais invadia com violência minhas narinas. Na esquina seguinte, a rua não ficava mais movimentada.
Ao chegar em casa verifiquei minha caixa de e-mails, o inbox, as tristes e vazias notícias no G1. Nada. Me lembrar dos cachorros era como acordar de um sono de mil dias. Abri o youtube e botei Journey In Satchidananda para tocar. A primeira nota daquele baixo sempre me arrebatou como uma chuva. Era a música perfeita. Sei que evitei olhar para a caixinha do teste de gravidez deixada em cima da pia enquanto preparava o uísque com CocaCola e Bromazepam. Eu jurei a ele que o tinha entregado todos os remédios – ele não gostava que eu tomasse -, mas não pude deixar de guardar pelo menos uma caixa. Ele dizia que a chave para o relaxamento não era externa ao ser, ou algo assim, e que o peso cultural de interesses econômicos e farmacêuticos que cada cápsula continha era também absorvido por meu corpo, tornando-o denso, antigo. Coloquei duas cápsulas 3 mg e duas pedras de gelo. O primeiro copo eu virei numa golada só, e já servi o segundo com mais uísque e refrigerante, sem o remédio. Alice Coltrane seguia ensinando às teclas do piano suas posições no mundo. O céu parecia se diluir atrás da janela da sala. Estava claro que não iria chover. Fiquei olhando um tempo para a rua, nunca havia percebido como a sombra da igreja se projetava imensa sobre uma distância incrível, que abrangia a praça do metrô e alguns prédios, que entre si formavam vãos e becos. Uma trovoada emergiu do estômago dos céus, surpreendentemente, e deixou que uma chuva excêntrica tomasse o bairro.

 

Coloquei o teste dentro do copo com urina e esperei com os olhos abertos. Eu estava sozinha. Quando a resposta surgiu no visor, me servi de uma única dose de uísque. Abri a gaiola de Flores e, por muito tempo, sob a negra luminosidade daquele anoitecer, eu observei seu corpo. Parecia rejuvenescido, saudável, uma calopsita novamente. Caminhei com a gaiola até a sala, abri a janela, que guardava em sua superfície lágrimas de cristal daquela chuva que ia terminando de enxugar a noite, e abri a portinha da gaiola uma última vez, porque Flores se precipitou sobre o parapeito, ergueu as asas e ganhou os céus, entoando uma encantadora melodia.

 

Ian Uviedo, julho de 2017

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